Marcus, Marcão, Advogado, Presidente
Estamos
lá pelos idos de 1991 na OAB, mais precisamente na Subseção de Balneário
Camboriú, (SC), quando era Presidente a Advogada Walkisse Garrozi Mascarenhas
Passos, uma pessoa seríssima, uma profissional comprometida, a 1ª mulher
Presidente da nossa Subseção, acredito, inclusive, a primeira a presidir uma
subseção no Estado de Santa Catarina.
Ela
foi reeleita para o segundo mandato, na época em que o tempo do mandato era de
dois anos. Então, presidiu nossa Subseção também nos anos de 1993/1994.
Bem
perto dali, na cidade de Brusque, SC, a OAB era presidida por Marcus Antônio
Luiz da Silva.
Foi
naquela época que o conheci, pois participava da OAB na condição de
Vice-presidente na gestão da Dra. Walkisse o que me oportunizou conviver com um
Colega que, ao longo dos anos, tornou-se, para mim e para muitos outros
Colegas, símbolo da Advocacia e baluarte dos Direitos Humanos.
Mas
o contato na época não era diário e tampouco havia o contato virtual como há
hoje em dia, então, nos encontrávamos e reencontrávamos em audiências
eventuais, no fórum ou nas reuniões da OAB, mais especificamente, no Colégio de
Presidentes quando então o Conselho Estadual reunia, como reúne até hoje, todos
os presidentes e/ou Diretores das subseções para debater temas de interesse da
categoria.
E
assim, ao longo dos anos, fomos estreitando aquela convivência e relacionamento
e desde logo Marcus, ou Marcão, como era mais conhecido, foi imprimindo sua
autoridade moral e coerência pessoal e em todas as oportunidades em que ele
estava presente, minha atenção – e de muitos - era rapidamente por ele atraída.
Naqueles
anos a OAB em Santa Catarina foi presidida por ilustres Advogados, tais como
Amauri João Ferreira, Fernando Carioni, Jefferson Luis Kravchychyn, Adriano
Zanoto que por sua vez também integraram o Conselho Federal representando nosso
Estado em outros mandatos. Simultaneamente, também, Marcão exerceu importantes
cargos, além da presidência da Subseção de Brusque, tais como Conselheiro
Estadual e Federal até que por último, presidiu a Caixa de Assistência dos
Advogados de Santa Catarina.
Foi
nesse ambiente que presenciei momentos marcantes da Advocacia Catarinense e em
todos eles testemunhei a intenção desses protagonistas, notadamente de Marcão,
no sentido de valorizar aqueles Princípios que marcam a evolução civilizatória,
tais como igualdade, respeito, solidariedade, não sem contrariedades,
obviamente.
Ele
era Advogado como poucos conseguiram e conseguem ser.
Formado
em uma das melhores Escolas de Direito do Sul do país, na Universidade Federal
de Santa Catarina, deixou claro que moldou nos bancos escolares a matéria prima
que trouxe de casa, de seus Pais: a empatia pelo humano, o respeito pelo
humano, o amor pelo humano.
Tinha,
com toda razão e externava isso, um imenso orgulho de sua família.
Mas
sacrificou-se e sacrificou sua família em nome dessa empatia pois grande parte
de sua vida dedicou ao outro, ao seu semelhante, quer seja nas fileiras da
Ordem dos Advogados e da Caixa de Assistência, quer seja nos corredores dos
fóruns no exercício dessa grande profissão.
Ao
tempo em que militava na Advocacia, na OAB e pelos Direitos Humanos,
compartilhou esses capítulos de sua história com muitos outros Colegas e
almejou concorrer a uma vaga no Tribunal de Justiça de Santa Catarina pelo
Quinto Constitucional, mas não logrou êxito, como também não logrou êxito
eleger-se Presidente da OAB em Santa Catarina.
Particularmente,
devo registrar, nenhum desses resultados diminuiu seu tamanho e brilho.
Conquanto eu não admire o instituto do quinto constitucional, reconheço que se
Marcão tivesse sido escolhido, certamente agregaria grandes valores à
Magistratura Catarinense.
Já
a Presidência da Ordem ele não alcançou pelo sufrágio, mas seu comportamento ao
longo dos anos fez com que seus admiradores guardassem na memória, com grata
satisfação, as atitudes do líder que era.
Ressalvo
que uma eleição não se constituí apenas e exclusivamente do ato de votar.
Antes, vai sendo construída dia a dia através de filigranas que para a maioria
passam despercebidas. E isso houve na história política de Marcão junto ao
sistema político da Ordem.
Mas
não obstante, Marcão ultrapassou todos esses limites na exata medida do que
sempre defendeu: que o humano vale mais e que o mundo tem que ser solidário e
democrático. Portanto, qualquer ambiente em que essa não era a regra, não tinha
espaço suficiente para comportar a vida de Marcão.
Hodiernamente,
em seus discursos assim como em conversas formais ou informais, debruçava-se,
junto com outros, buscando compreender o que estava acontecendo com a Advocacia
em pleno Século XX, época tão esperada e construída com tantas glórias e dores,
sim, porque formado na década de 1980, mais precisamente em 1983 – vale
lembrar, antes da Constituição Federal de 1988 – estudou numa Escola nascida
nos tempos da repressão e certamente por isso, alguns Mestres da academia da
época tanto se esforçaram em fazer com que os alunos refletissem,
questionassem, pesquisassem, na tentativa de aprofundar o ensino e o
aprendizado a tal ponto de transformar esses alunos em futuros profissionais
libertários. Marcão também passou pela Academia como Professor e também se esforçou.
Como aluno tornou-se um profissional libertário honrando seus Mestres.
A
propósito, lembrando o respeitado Jurista Lênio Streck, assistimos nas últimas
décadas o ensino ser ministrado, em muitas Escolas, na base da “decoreba”, com
manuais que mataram a consciência crítica dos Estudantes, pelo menos de um
número suficiente para afetar a Advocacia. Marcão via isso, reconhecia que isso
estava acontecendo, como tantos outros também percebiam e a seu modo tentou dar
sua contribuição para que não saísse de nossa lembrança a importância altiva
dessa Profissão. E todos os dias ele a enaltecia. Onde quer que o encontrasse,
sempre tinha uma palavra para reiterar a importância desse múnus, a
importância do conhecimento, dos Direitos Humanos, das Instituições, da Liberdade,
da Democracia.
Não
sem razão portanto, toda admiração que construí ao longo dos anos em relação a Marcus
Antônio Luiz da Silva.
Mas
a vida o levou para sua grandeza, deixando para mim e para tantos outros, essa
lembrança inesquecível do grande Colega que foi, do grande Advogado que foi, do
grande Ser Humano que foi.
Ao
fim e ao cabo, guardo o privilégio e a honra de tê-lo conhecido e com Ele ter compartilhado
aprendizados, lutas, algumas derrotas e
muitas vitórias.
Marcus,
Marcão, Advogado, Presidente, PRESENTE!
Retijane Popelier
Advogada
OAB/SC 5.093
BC/SC,
24.5.2020
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