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O sistema de justiça brasileiro e sua derrocada


Opinião da Advogada Retijane Popelier – OABSC 5093 – em 6/2/2017

Em 1985, quando comecei a advogar, as perspectivas de resultado eram muito boas. Claro, dependeria do trabalho ou do jeito de fazer advocacia. Em 32 anos isso mudou drasticamente. Hoje o bacharel – que continua tendo um grande leque de opções – tem que pensar muito bem SE ingressa na carreira ou SE presta um concurso. Aliás, não precisa “pensar muito bem”, basta comparar.
O que cresceu mesmo, nesses 32 anos, foram os ‘cursos de direito’, sim com letra minúscula mesmo. Apesar dos grandes esforços de alguns vocacionados para o Magistério, em média os docentes tem formação muito rasa [não estou falando em mestrado ou doutorado, mas em formação de base], e isso compromete definitivamente todas as categorias profissionais do sistema de justiça.
Por consequência a qualidade da prestação jurisdicional é imediatamente afetada, afinal, o bacharel não vai somente para a Advocacia, ele vai atuar também no MP, na Magistratura, como Servidor, na Polícia, na Administração Pública  e etc.
Nesse mesmo período o mercado também se modificou, assim como o próprio Poder Judiciário que, tanto como os demais poderes, sofreu influencia do modelo econômico capitalista. Em algumas situações, a própria soberania nacional foi afetada. Para conferir consultem o Documento Técnico 319 do Banco Mundial, verdadeira fórmula capitalista de como deve ser o poder judiciário na América Latina e no Caribe. Dizer mais o quê?
O que estamos vivendo hoje é um “ponto fora da curva”. O poder da Suprema Corte foi relativizado no episódio “Renan” -  mas lendo suas razões [de Renan] nasce a dúvida: Estaria a Suprema Corte “a serviço”? Deveria? Poderia? -  a dúvida permanece, mas agora com a certeza de que o supremo poder no mínimo “deixa dúvidas”.
Não me afastando muito do meu centro, aqui na Comarca a Advocacia e a prestação de serviço jurisdicional tem deixado a desejar. Há uma insatisfação generalizada – claro, há algumas exceções, mas no geral, desde o estagiário até o magistrado, estão insatisfeitos. Há poucos dias conversei por acaso com um desembargador. Ele também está insatisfeito!
Como Advogada minha estrutura de trabalho tem um custo. Mas eu tenho que “concorrer” com outro Colega que “atende no cafezinho da esquina”! O preço dele será, certamente, bem menor que o meu. O cliente, via de regra, não está preocupado com a qualidade do serviço que está contratando. Está preocupado, conforme o caso,  “se consegue pagar”.
A partir da virtualização do sistema, além de advogados nos tornamos distribuidores de ações, logo, a quantidade de novas ações aumentou, mas o número de servidores e magistrados NÃO.
Mesmo com esse aporte de “novos distribuidores”, não houve redução das custas processuais. Logo, as pessoas não deixam de promover ações judiciais, elas migram para os juizados especiais [pessoas jurídicas também], onde não há custas, não há sucumbência, MAS O TRABALHO É O MESMO, logo, A INSATISFAÇÃO TAMBÉM.
E o engraçado é que vivemos em um sistema capitalista, cujo sistema de justiça atua de modo socialista. Veja-se, por exemplo, a situação dos oficiais de justiça. Recebem diariamente uma enxurrada de mandados para cumprir. O salário está, segundo dizem, somente sendo corrigido pela inflação e a maioria dos processos de onde advém os mandados é “de graça”, ou seja, sem diligências. De graça para quem cara pálida?
Resultado disso, muitas das vezes, é o descumprimento do “mandado”, lógico. Com que ân$mo o sujeito vai “envidar todos os esforços para localizar alguém” se tem que pagar do próprio bolso pois não recebe nenhuma diligência para citar o fulano que a empresa TAL está processando no juizado especial? Isso lembra um pouco o socialismo. Socialismo para quem cara pálida? Isso nos serve?
Logicamente que não. O sistema de justiça está se auto colapsando, ao som do hino nacional [aquela música que a maioria canta e nem percebe....].
Ao mesmo tempo, chovem leis concedendo benefícios [ou privilégios] para uma ou duas categorias que compõe esse sistema, alargando ainda mais a antipatia que norteia as relações nesse mundo de egos salientes que é o sistema de justiça brasileiro.
Estamos caminhando para a derrocada, se não do PODER EM SÍ, mas do serviço que ele presta, e estamos todos contribuindo para isso.





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