Sou advogada há 32 anos ... caminhando para o 33º ano de atividade. Minha advocacia é artesanal, daquela que atende pessoas, problemas cotidianos, muitos casos de família, mas também comerciais, relações de vizinhança, indenizações, etc., e são 32 anos sem que eu tivesse tido 32 férias!
Foi em 1984 o ano da formatura, ano das "diretas já" e em 1985 o início da prestação do serviço. Nos primeiros quinze anos não tinha horário nem dia. Era puxado! Não enriqueci, segundo o modelo vigente, pois sempre trabalhei dentro das regras, mas tenho outras riquezas "fora do modelo", eu diria, e apesar de sentir toda a realização por tudo o que fiz, honrada pelos acertos e envergonhada pelos erros, chego ao fim da carreira esgotada e desestimulada. Não estou me queixando, apenas admitindo o que a maioria nega: é uma profissão que "seca gelo", ou "troca seis por meia dúzia".
Ao longo desse tempo a legislação foi sendo aprimorada; aumentaram a quantidade de escolas "de direito"; cursos de pós graduação, mestrado e doutorado passaram as ser comuns. O processo judicial modernizou-se, hoje ele é virtual. Métodos alternativos de resolução de conflitos passaram a ser oficialmente aplicados e novos profissionais entraram nesse meio. Contudo e apesar disso, o que sinto - assim como praticamente todos os meus colegas com o mesmo tempo de trabalho - é o desânimo.
E se ainda assim pudesse reconhecer que as pessoas evoluíram, que as relações humanas se aprimoraram com a ajuda desses 32 anos de esforço, mas não! A realidade mostra o contrário.
Pequenos grupos, aqui e acolá, estão tentando inverter essa realidade. Tal qual a fábula do Colibri, que buscava no lago uma gotinha de água para ajudar a apagar o incêndio da floresta, são esses pequenos grupos.
Sem dúvida parece que não entendemos o que realmente acontece; parece que não temos ideia dos emaranhados que nos ligam; aplicamos soluções paliativas que não observam a fundo e seguimos nessa toada repetida, capitalizando conflitos, sustentando engenharias enferrujadas. E o tempo vai passando e vamos sendo substituídos pelos mais novos que, com idêntica ilusão, darão seus 30, 31, 32, 33 e tantos mais anos de vida e de esforço, aonde o que se modifica é apenas o tempo.
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